Giro
The Twins
Portal 180º


Idênticos, “Os Gêmeos”, como são conhecidos Otávio e Gustavo Pandolfo estão no auge de suas carreiras: grafiteiros e fazedores de uma arte moderna capaz de acalmar e inquietar, eles retratam em telas e muros as mazelas e belezas do cotidiano comum do brasileiro. Cheio de elementos do nosso folclore, o capricho da arte dos dois colore esquinas da cinzenta São Paulo há quase 20 anos. Aos 35, os irmãos do bairro do Cambuci, em São Paulo são duas mentes sincronizadas: sem combinar muito eles vão pintando, montando, instalando e um completa a invenção do outro, um preenche o que falta no desenho do outro de uma maneira muito natural, como eles explicam nessa entrevista. A sincronia é tanta que até a resposta de um encaixa na do outro, como você confere a seguir. Depois de uma longa caminhada das ruas de São Paulo para as principais galerias do mundo, Tate Modern, Deitch Gallery e Fortes Vilaça são só algumas da mecas da arte moderna que resolveram imortalizar o que até poucos anos era “coisa de marginal” e estava disponível apenas em muros, sofrendo o preconceito e a força do tempo. Sorte a nossa. Ah! Lá fora eles são “The Twins”, tá?

Dizem que os artistas têm o lado direito do cérebro dominante, mais criativo, e o lado lógico e racional menos, digamos, robusto. A pergunta é simples: vocês são bons de matemática?

Gustavo - Hahaha, não! Mas essa coisa do lado criativo do cérebro entre a gente funciona assim: o que falta de criativo na minha mente tá na dele, e vice-versa. A nossa criatividade se completa.

Como rolou a primeira viagem internacional pra grafitar?
Otávio - A gente deu uma entrevista para a 12OzProphet (twelve ounce prophet), uma revista americana de grafite, e o Lumit, artista alemão super conceituado na cena do grafite mundial, viu e quis conhecer o nosso trabalho. Ele veio pra SP, fizemos bastante coisa juntos, e depois de 3 meses ele ligou e falou: “a passagem de vocês tá comprada, vem aí pra Munique que vai rolar um festival de grafite”. A partir daí o nosso trabalho ficou conhecido. Isso foi em 99.
Gustavo - Foi legal essa coisa de não termos tido muita informação no começo. A gente tinha noção básica do que tava rolando em NY, na Europa, que era um grafite com estilo bem tradicional. Mas durante uma época da nossa vida quisemos nos afastar um pouco, desencanar daquilo que todo mundo tava fazendo pra tentar buscar mais as nossas raízes... e foi a partir daí que criamos nosso estilo, que é totalmente diferente.

O grafite hoje é arte, mas antes era coisa de marginal. O que mudou: o olhar das pessoas, a qualidade do grafite, ou as duas coisas?
Otávio - Quando você fala de grafite pode usar ele de forma legal ou ilegal. Pra gente sempre foi estar na rua e intervir no meio urbano. Principalmente de forma ilegal, sabe? Você não ter que pedir pra alguém, não ter que ir à prefeitura pra ter autorização. Simplesmente você tá a fim de pintar a porta da loja de um cara? Vai lá e pinta, ninguém tem que falar como, onde e por que você tem que fazer, você vai lá e faz.
Gustavo - Mas depois de fazer exposição em galeria realmente o grafite passou a ser mais aceito. Só que pra nós dois o que fazemos dentro da galeria não é grafite. Tela e muro são coisas bem diferentes, não têm nada a ver. Grafite é na rua. Isso aqui (apontando pra uma tela) tem as mesmas técnicas, os mesmo desenhos, mas não é grafite.

Define o que é grafite pra mim?

Otávio - Pra gente é o fato de você transformar alguma coisa no meio urbano. Com tinta!

Então quando o grafiti entra numa galeria ele vira o quê?
Gustavo - Sei lá, é arte! Arte contemporânea, arte conceitual, não sei. Mas grafite é feito na rua: pode ser uma parede pública, privada, um vagão de trem, metrô, não importa, é algo que tá lá fora.
Otávio - E na rua não tem dublê. Não adianta o cara falar “eu sou grafiteiro”, tem um monte de gente hoje em dia que fala isso e só faz exposição em galeria, não sai pra rua.
Gustavo - Só que pra ser grafiteiro de verdade você tem que pintar MUITO, manter seus desenhos lá, ter um estilo bom, reconhecível pras pessoas, tem que ter qualidade.

Como é a sensação pintar e saber que vai durar por um tempo determinado? Vocês fotografam tudo?
Otávio - O fato de estar na rua já faz a pintura sofrer com o tempo, vai estragando, apagando.
Gustavo - A gente fotografa tudo, sim.

E dá dó?
Otávio - Acho que não, porque você fez um e depois já parte pra outro, vai renovando, sabe? Quando você pinta na rua você dá isso pras pessoas, não é mais seu. É seu só no sentido do respeito, por exemplo, de outra pessoa não pintar em cima, daí não, meu, peraí! Cada um tem seu espaço. Agora se a prefeitura limpou, cê vai lá e faz de novo.

Pois é, vocês foram convidados para pintar um castelo histórico de 900 anos na Escócia, e de repente aqui em SP a prefeitura vai lá e apaga um painel de vocês. O que vem à cabeça ao fazer essa comparação?
Otávio - Se você parar pra analisar, apagar um mural de 60 metros “por engano” é uma coisa muito louca.
Gustavo - É simples – a gente vê que os governantes do Brasil estão atrasados pra isso, têm muito preconceito. O povão gosta, mas quem está na elite demora um tempo maior pra entender. Mas depois que apagaram o painel MUITA gente reivindicou, e o Kassab (prefeito de SP) chamou a gente pra ir lá e trocar uma ideia, pediu desculpas e pediu pra gente pintar de novo. Pagaram as tintas e refizemos o painel em dezembro.

Fora essa mancada da Prefeitura, no geral, tirar outdoors e propagandas (Lei Cidade Limpa) deu uma limpada que acaba valorizando mais o trampo de vocês?
Otávio - É engraçado porque depois que a gente pintou lá na 23 parece que aquilo passou a fazer parte da cidade. As pessoas passavam e acho que nem olhavam mais. Mas depois que tiraram, teve uma puta repercussão, parece que mexeu com a rotina das pessoas, tanto que a gente recebeu trocentos e-mails, telefonemas, todo mundo revoltado. Pra você ver como é importante um trabalho na rua.
Gustavo - Eu acho que a Lei tem pontos positivos sim, por exemplo, preservar a fachada de uma casa antiga que tava sendo toda tampada por outdoors.
Otavio - É bem diferente você ter a propaganda de uma empresa ali e ter um grafite. Enquanto uma propaganda é um troço que o cara pagou e você é obrigado a ver, o grafite tá ali de graça pras pessoas e pra cidade. É um presente.

E algum grafite de vocês já foi pichado? Existe esse risco ou rola um código de respeito entre grafiteiros e pichadores?
Gustavo - Não, nunca nada nosso foi pichado. É muito simples: aqueles que fazem o grafite e a pichação acontecerem em SP têm respeito mútuo. A lei da rua é assim, ninguém precisa pintar em cima de ninguém.

Vocês ainda saem por aí em busca de uma parede no bairro pra grafitar ou não dá mais tempo?
Gustavo - De vez em quando dá vontade e vamos pra rua pintar uma parede, porque também tem que ter o equilíbrio. Aí vamos pro Centro de São Paulo. Mas como tem muitos outros projetos que até hoje não fizemos e temos muita vontade, estamos experimentando as novidades.

Vocês já se machucaram grafitando?
Otávio - Muito! Caindo, se cortando, afundando no telhado.

Quem caiu do telhado?
Gustavo - Eu enfiei o pé e caí, mas fui parar dentro de uma caixa d’água. Machuquei um pouco a perna, mas saí de lá e continuei pintando.
 
E quanto tempo vocês demoraram pra apurar o estilo de vocês?
Gustavo - Olha, bastante. Foi mudando muito, mas no total, pra chegar no que a gente tem hoje, acho que uns 10 anos.

E como foi a transição da rua pra dentro das galerias?

Gustavo - Aconteceu devido à necessidade de falar mais. Só a pintura pra gente não tava resolvendo...

E grana também, não?
Gustavo - É, também. O fato de podermos viver daquilo que fazemos empurrou um pouco. Mas quando começamos a trabalhar em galerias não tínhamos esse espírito de vender. Isso lá em 2001, a gente fazia porque podia usar o espaço, a energia de dentro do lugar, luz, som, dava pra montar um ambiente, então vamos experimentar, sabe? Sei lá, colocar um peixe que tem luz, dar mais vida pra coisa. Só depois, quando fomos trabalhar com a Fortes Vilaça e com a Deitch Gallery, em NY, é que a gente entendeu o que é entrar no mercado de arte. O que fazemos agora tem valor de mercado, tem investidores comprando nossa arte pra isso, passamos pra outro patamar. É bom saber que estamos ganhando pra fazer o que gostamos, mas ainda assim acho que NADA paga o fato de poder criar.

Como é que dá pra fazer um traço tão fino com spray?
Otávio - Hahaha, legal essa pergunta!
Gustavo - É que tem muita informação dentro da nossa cabeça, então pra passar isso pra um espaço, uma tela, precisamos montar uma técnica. Por exemplo, a gente queria colocar a menina pescando o peixe com o cabelo. Tem detalhes que temos que fazer de uma forma minuciosa, e conseguimos isso contornado fininho, aí dá pra colocar toda a informação que a gente quer.

Tá, mas como é que sai o spray tão fininho, vocês colocam o dedo na frente da válvula?
Otávio - Hahaha, não, se colocar o dedo na frente espirra tudo!
Gustavo - É a forma de apertar! É só apertar devagar.

Ah tá! E o traço fino, olhos esbugalhados e narigão: é criação do Gustavo ou do Otávio?
Otávio - A gente criou tudo junto. Foi bem natural a forma que aconteceu a criação desse estilo. Parece até uma coisa meio mágica, sabe?

Sei. E os dois têm exatamente a mesma facilidade pra desenhar, contornar sombrear e preencher, ou cada um tem mais a manha de fazer uma coisa?

Otávio - Tudo igual.

Por exemplo, quem “veste” os personagens?
Otávio - Os dois, tudo igual.

Apesar de serem gêmeos, existe algum conflito de estilo entre vocês? Se sim, como vocês lidam com isso?
Otávio - Não, rola um equilíbrio. É tipo uma comida, um arroz com feijão. Eu quero fazer uma coisa, vou lá e faço, daí ele faz outra e completa.
Gustavo - Por exemplo, a gente tá pintando essa tela ali e eu quero fazer os olhos da menina em azul, vou lá e faço. Daí ele pensa que a bolinha de dentro dos olhos tem que ser vermelha pra dar um reflexo, ele vai lá e faz. E assim é com tudo, a coisa vai indo embora desse jeito, fluindo.

Para quais países o grafite levou vocês?
OG - Chile, Argentina, EUA, Porto Rico, Cuba, México, Portugal, Espanha, França Alemanha, Holanda, Itália, Suíça, Inglaterra, Escócia, Grécia, Índia, China, Japão e Lituânia.

E de qual lugar vocês mais gostaram?
OG - Putz, cada lugar é um universo, um mundo diferente, é difícil dizer isso.

A pegada do grafite é diferente em cada lugar?
Gustavo - É. Tem bastante diferença entre os estilos dependendo do lugar. NY por exemplo é muito forte em desenhar letras, e eles continuam até hoje com esse jeito tradicional. Na real o desenho veio daí, pra ilustra a letra. Mas cada lugar tem uma pegada.

E é tranquilo chegar e grafitar pelo mundo?
Otávio - Não, em NY e na Alemanha, por exemplo, é crime, vandalismo. Barcelona já foi legalizado mas agora não é mais. O Brasil é o lugar mais tranquilo, além da Argentina, do Chile e de Cuba. Em Cuba na real ninguém nem sabe o que é grafite.

Como é a abordagem em geral das pessoas que passam e vêem vocês grafitando?
Gustavo - É incrível como as pessoas querem participar quando a gente tá trabalhando na rua. Param pra conversar, buzinam, fotografam. E as crianças gostam muito, é bem legal.

O Kelburn Castle Project demorou quanto tempo pra ficar pronto? E quantas latas de spray vocês usaram?

Gustavo - Demorou um mês e usamos umas 800 latas.

Foi o maior número de latas usadas por vocês?

Gustavo - Nãããão! Aqui na 23 a gente também usou muito tinta, não lembro quantas, mas tem projeto que a gente usa 2, 3 MIL latas!

A tia do John Lennon dizia pra ele: “tudo bem você tocar guitarra, mas meu filho, você nunca vai ganhar dinheiro com isso”. O que a mãe de vocês falava no início?

Gustavo - A preocupação dela era a gente se perder em violência, crime e drogas, porque a rua é isso. Ela tinha medo também de sermos presos pintando. Mas incentivar eles sempre incentivaram, porque a nossa vida foi pintar, ela comprava canetinha, papel, então pra eles é legal ver onde a gente chegou. Mas tem a parte da família que nunca gostou e que dizia que isso não ia dar em nada, que “esses moleques têm que trabalhar”, mas mãe e pai sempre disseram: “deixa eles desenharem, eles gostam”.

Quantas paredes vocês já pintaram no Cambuci?
OG - A gente não faz ideia.

Pô, cêis são ruim mesmo de matemática, hein?

Gustavo - Hahahaha, é que a gente não tá preocupado em querer saber a quantidade, a gente tá preocupado é com a próxima!
Otávio – Hummm, tá, acho que mais de duzentas paredes, vai.

Os desenhos de vocês expressam inquietude (pelas situações dos personagens), mas eu também sinto CALMA, tranquilidade. Dá pra explicar isso ou eu tô viajando?
Gustavo - Cada um sente o que acha, mas realmente tem alguns trabalhos nossos que transmitem isso mesmo.

Tem molequinho miserável com ranho escorrendo rodeado de cores e brilho de lantejoula. Dá pra tristeza ser colorida e a pobreza ser brilhante?

Otávio - Isso aí é como a gente é. Às vezes é um segundo do que a gente pensou. Tipo uma fotografia. Ao mesmo tempo que o personagem tá sorrindo ele pode estar triste, é assim, a gente é assim.

Na história da arte a tristeza e a miséria sempre tiveram cores escuras e sombrias. O que vocês fazem é uma desmistificação do “óbvio”?
Gustavo - A tristeza não tem que ser sombria não, e acho que isso é uma característica bem brasileira, o povo brasileiro tá na merda dando risada. Você assiste na TV uma favela pegando fogo e os moradores preocupados em ficar atrás da câmera acenado pra aparecer, isso é o retrato do Brasil. E tem elementos do nosso trabalho que realmente estão aí pra questionar mesmo. É forte. Tem coisa que tá ali “dando um tapa na sua cara”, e mesmo assim você consegue achar lindo.

Hahaha, é um tapa colorido?
Gustavo - É! Meio que beijar a pedra pra atirar, sabe? Uma maneira bonita de dar um tapa.

Vocês falam inglês e mais alguma língua?
Gustavo - Inglês e espanhol.

Aprenderam na rua?
Otávio - É. Viajando, na rua, com as pessoas.

Que artistas fora do grafite vocês admiram?
OG - Uma porrada, mas alguns deles são Bispo do Rosário, Vaughn Bodé, Roger Waters (Pink Floyd), Siba e Fulôresta.

Quando criança, o que vocês usavam como referência pra desenhar?

Otávio - O Arnaldo, nosso irmão mais velho, trouxe uma coleção de 3 livros chamada Paraíso Infantil quando ainda éramos bem pequenos.
Gustavo - Só que era tudo ilustrado, então fudeu, né? A gente copiava, queria intervir no livro, colocava os bonequinhos pegando fogo! Hahaha, aqueles livros foram uma orgia pra gente!

Vocês transformaram o Paraíso Infantil no Jardim das Delícias (Bosch)?
Gustavo - É! Hahaha, a gente destruiu os livros completamente, ficou sobrando um caderninho só, perdido por anos, que depois a gente achou.

Quando vocês viajam vocês visitam museus?
Gustavo - Nossa, claro, cara, a gente é VICIADO em imagem, a gente ADORA ver imagem, não importa o que seja, você vê que eu tô aqui com a revista na mão só folheando e fazendo isso, vendo as imagens.



Tag: gemeos, twins.


 



Comentários (0)

Seja parte integrante da Comunidade 180°!
Todas as matérias do portal estão abertas para seus comentários, críticas e dicas de viagem!

Só serão aceitos os comentários de usuários logados no Portal 180°. Digite CPF e senha para continuar.

CPF    Senha   


Ainda não faz parte da Comunidade 180°? Faça já seu cadastro aqui! | Esqueci minha senha




Mundo Escola
Bola de rugby gigante chega em Tóquio
Perth: equilíbrio perfeito
Cidade poderosa
Ver todas


Sentando e copiando (Blog 180°)